Entre os dias 9 e 13 de março, a Diocese de Colatina acolheu a presença de Dom Raimundo Vanthuy Neto, bispo da Diocese de São Gabriel da Cachoeira (AM), que conduziu o Retiro Espiritual do Clero Diocesano, realizado no IESIS, em Ibiraçu.
Antes do início do retiro, Dom Raimundo também visitou algumas comunidades da Diocese, onde presidiu celebrações e participou de momentos de encontro com os fiéis, fortalecendo a comunhão entre as Igrejas e a vivência da espiritualidade missionária.
O retiro espiritual é um momento anual dedicado à oração, ao silêncio e à renovação espiritual dos sacerdotes da Diocese. Durante esses dias, os presbíteros se recolhem para aprofundar a vida interior, fortalecer a comunhão presbiteral e renovar o compromisso com a missão evangelizadora.
A presença de Dom Raimundo como pregador trouxe à Diocese a riqueza da experiência missionária vivida na Igreja da Amazônia, especialmente em uma realidade marcada pela diversidade cultural e pelos desafios pastorais da região.
Antes de iniciar o retiro, Dom Raimundo esteve em algumas comunidades da Diocese, onde presidiu celebrações e partilhou com os fiéis um pouco da experiência pastoral vivida na Amazônia. Esses momentos foram marcados pela acolhida fraterna das comunidades, expressando a comunhão entre as Igrejas.
Durante sua passagem pela Diocese de Colatina, Dom Raimundo Vanthuy Neto concedeu uma entrevista exclusiva à PASCOM Diocesana. Na conversa, o bispo refletiu sobre a importância do retiro espiritual na vida dos sacerdotes, a comunhão presbiteral e os desafios da missão evangelizadora da Igreja, partilhando também aspectos de sua experiência pastoral na realidade missionária da Amazônia.
Segue abaixo:
Entrevista com Dom Raimundo Vanthuy Neto
PASCOM – Como o senhor recebeu o convite para conduzir o retiro espiritual do clero da Diocese de Colatina e o que significa para o senhor viver este momento com os sacerdotes da Diocese?
Dom Vanthuy – Bom, eu recebi o convite quando o até então seminarista Carlos Daniel, daqui da Diocese de Colatina, estava morando comigo em São Gabriel da Cachoeira. Num certo dia ele disse: “Olha, Dom Lauro está perguntando se o senhor pode acompanhar o retiro”. E aí eu fiquei um pouco apreensivo, mas depois Dom Lauro me comunicou, e eu disse que eu vinha.
Na minha cabeça, eu tinha duas imagens. Primeiro pensei em João Batista, como aquele que prepara o caminho do Senhor — e o presbítero também faz esse percurso na vida de João, desde o ventre até o seu martírio. Depois eu pensei também nas Bodas de Caná. Eu já tinha acompanhado um retiro para umas Salesianas a partir da perspectiva de Maria, e aquilo me marcou. Pensei: “Eu poderia também pensar o presbítero a partir das Bodas de Caná”. Comecei a trabalhar um pouquinho essa ideia.
Quando o padre Edgar Rigoni, que até então era reitor do Seminário Maria Mãe da Igreja desta Diocese, foi me visitar — e visitaram também o seminarista — eu falei para ele das duas perspectivas. Ele disse: “Então faça as Bodas de Caná, porque a padroeira da Diocese é Nossa Senhora da Saúde”. E assim surgiu.
Estar nesses dias aqui, para mim, é mais do que pregar um retiro: é acompanhar uma experiência de exercícios espirituais. Porque eu também nunca deixei de ser padre. Vou continuar eternamente padre. O ministério episcopal, de certa forma, é um ministério de coordenação da unidade do grupo dos presbíteros. Então, eu sou um presbítero igual aos outros, talvez com essa responsabilidade de irmão maior no sentido da missão — mas não de idade, porque eu ainda sou muito jovem, tenho 52 anos! (risos)
PASCOM – O retiro espiritual é um tempo importante na vida do sacerdote. Na sua visão, qual é o principal fruto que esse momento pode trazer para a vida e a missão dos padres?
Dom Vanthuy – O principal fruto é sempre recordar que eu participo da obra de Jesus Cristo. Ele gostou de mim e me chamou. Dentro da minha vida, há algo que é próprio para essa obra. Pensar isso faz com que eu perceba que não sou um padre isolado, mas participo da vida de uma Igreja local. O primeiro fruto é essa consciência: Deus encontrou em mim algo que vai ajudar a obra do seu Filho a continuar.
Segundo: que eu não faço sozinho, a gente vive como presbitério. Por isso é muito bom o retiro — os padres todos estarem juntos. É um momento de descanso, um momento de oração mais intenso, mas também um momento de se olhar, de reflexão, de descobrir que Deus me chama a estar com Ele. Mais do que eu estar com Ele, é Deus quem vem até mim e fica conosco, como dizia Dom Lauro na homilia.
PASCOM – O senhor exerce seu ministério episcopal na Diocese de São Gabriel da Cachoeira, uma região marcada pela forte presença dos povos indígenas e pela realidade amazônica. Que aprendizados essa missão tem trazido para a sua vida e para a Igreja?
Dom Vanthuy – O primeiro aprendizado é que eu sou muito pequeno para o tamanho da missão. Isso tem sido uma luta comigo interiormente. A segunda coisa é que eu acho que Deus também viu alguma coisa em mim: que eu posso fazer companhia. Eu não chego lá para fazer grandes coisas, mas para fazer companhia.
A Igreja está lá há mais de 100 anos, a missão é antiquíssima, desde o tempo dos Carmelitas, no período colonial. Imagine quantas sementes do Evangelho foram espalhadas nesses povos originários. Depois, quando foi criada a Diocese, já se passaram mais de cem anos — eu sou o nono bispo. Então eu entro no barco da Igreja que já caminha. Eu chego lá e tento entrar junto.
Claro, cada época exige de quem é responsável uma lucidez, de modo especial no discernimento daquilo que o Espírito diz às Igrejas. Hoje o Espírito pode dizer algo à Igreja de São Gabriel, e eu preciso estar atento. Com os povos de lá, precisamos discernir.
Essas são duas grandes alegrias: a minha pequenez, mas, ao mesmo tempo, a missão de entrar no barco da Igreja. E, a cada tempo, a cada época, o Espírito suscita coisas novas — e eu estou lá para isso.
PASCOM – Que mensagem o senhor gostaria de deixar aos sacerdotes da Diocese de Colatina para além deste tempo de retiro espiritual?
Dom Vanthuy – Eu diria que a primeira mensagem é: caminhem sempre juntos. Juntos uns dos outros, com o vosso bispo. Nunca deixem ninguém de fora. A ideia de um presbítero que fica “sobrando” é horrível, não é possível para nós. Entre vida presbiteral e egoísmo isso quase não existe; é impossível, é como uma aberração. Nós somos um corpo.
Caminhem sempre juntos, deem sempre as mãos — cada um tem seus limites, suas capacidades, seus pecados, suas virtudes.
A segunda: lembrem-se de que vocês estão a serviço do povo de Deus desta região. Ajudem esse povo a conhecer mais a Palavra de Jesus, ajudem-nos a mergulhar nos sacramentos para uma vida íntima com Jesus. E ajudem-nos a descobrir que eles são o povo que o Senhor chamou para a vida discipular.
Todo mundo aqui é discípulo de Jesus Cristo. Todo mundo é chamado, com sua vida, a falar de Jesus para os outros — todo mundo é missionário.
Por último: sejam fermento na sociedade colatinense, nesta região, de modo especial numa sociedade marcada por limites, como a fragilidade da dignidade humana. Muitas vezes o ser humano fica em segundo plano; em primeiro plano estão a economia, as coisas, a mania de riqueza, de dinheiro.
Se a Igreja aqui pode ser fermento na massa, ajudando os povos a pensar na dignidade, lutando para que cada homem e cada mulher tenha a sua dignidade… Isso me lembra muito aquela imagem bonita do Concílio, mas, de modo especial, de um documento do Papa chamado Populorum Progressio: evangelizar é ajudar os povos a passar de condições menos humanas para condições mais humanas.
Se a Igreja ajuda as pessoas a entrar nesse humanismo, nessa sensibilidade aos outros, a tornar esta região mais humana, ela está cumprindo o seu papel de evangelizadora.
PASCOM – Durante sua passagem pela Diocese, o senhor também celebrou em algumas comunidades. Qual impressão o senhor leva da Igreja presente aqui no norte do Espírito Santo?
Dom Vanthuy – A primeira comunidade em que eu fui foi a Paróquia Missionária São Francisco de Assis, em Laranja da Terra. Fiquei muito contente porque me senti muito em casa. Eu sou filho de gente do interior — meus pais eram da roça, minha mãe era costureira. Então me senti no meio da comunidade simples do interior, gente “colona” que trabalha a terra, gente trabalhadora. Não me senti nada estranho.
Fiquei muito contente de poder ver as senhorinhas e senhorzinhos, as mãos deles calejadas pelo trabalho. Quando eu dou a comunhão para essas pessoas que vêm com essas marcas do trabalho, isso me dá uma alegria muito grande interiormente. O Senhor veio para eles, para esses que são os pequenos e os simples. A imagem de alguém que trabalha, que acredita, que semeia — isso é muito bonito.
Depois tive a oportunidade de celebrar em outros dois lugares muito importantes para a Diocese: a Catedral, na companhia de Dom Lauro. Encontrei uma catedral muito povoada, cheia de gente, uma missa muito bonita, acolhendo catecúmenos — adultos que querem redescobrir a fé e fazer o caminho de discípulos de Jesus.
Fiquei muito contente, nesse período que antecede a grande Vigília Pascal, de poder acolher adultos que dizem: “O jeito de Jesus é bom para mim, será um bem para minha vida”.
Celebrei também no Mosteiro das Clarissas, que eu acho que é um lugar que pode ajudar a gente a descobrir a vocação da Igreja como comunidade orante, que reza nas intenções do mundo. Lá, nessa missa, eu quis rezar muito pela paz.
Aquelas irmãs são as “damas da caridade”, como Santa Clara chamava — mulheres que acompanharam a vida de São Francisco, com aquela marca linda franciscana e clariana. Ali se respira a oração pela paz: a paz na sua casa, nas famílias, no interior de cada um — e hoje, tão exigente, a paz para o mundo.
Por fim, tive oportunidade também de presidir a Eucaristia de abertura do retiro e de celebrar todos os dias. Isso me fez muito bem, porque me fez descobrir como um presbítero que vive o cotidiano dessa experiência do Senhor, que aproveita de nossas fragilidades e quis ser um pedacinho de pão para alimentar nossas vidas.
Fiquei muito contente de celebrar com os presbíteros. Alguns dias foram eles que presidiram, e isso me deixou muito bem: eu sou um padre como os outros. Amém.
A presença de Dom Raimundo Vanthuy Neto foi vivida pela Diocese de Colatina como um tempo de graça e fraternidade entre as Igrejas. O retiro espiritual proporcionou aos presbíteros dias de oração, reflexão e renovação do compromisso com a missão evangelizadora, fortalecendo a comunhão do presbitério diocesano.
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Fonte e Fotos: PASCOM Diocese de Colatina
Colaboração: Diácono Carlos Daniel













